• Alessandra Nahra

Alimentos orgânicos ou agroecológicos — qual a diferença?



Para conquistar o selo orgânico, os alimentos devem passar por uma certificação, e isso tem um custo com o qual muitos agricultores familiares não conseguem arcar. Ou, se conseguem, esse custo muitas vezes é refletido no preço final dos produtos. Esse é um dos exemplos que explicam por que os orgânicos costumam ser identificados como sendo "caros" nos supermercados. Outro motivo é que a cadeia que leva os produtos orgânicos até a prateleira do supermercado costuma ter muitos elos. Imagine o pequeno agricultor que já pagou pela certificação e conta com atravessadores para escoar sua produção para uma grande rede varejista que tem alto poder de negociação. Agora pense quem é que lucra mais nessa cadeia de tantos elos. É fácil concluir que não é o pequeno agricultor.

Mas então, o que fazer para comprar alimentos sem veneno e sem gastar uma fortuna no supermercado? A primeira sugestão é… não comprar no supermercado! Identifique na sua região feiras de produtores, nas quais se pode comprar os alimentos direto dos agricultores, ou bem próximo deles. Nas feiras de produtores orgânicos, os alimentos certificados são mais baratos, pois não há atravessador nem grande rede varejista entre a comida e a pessoa que compra. Essas feiras fazem parte dos circuitos curtos — que, como o nome já diz, têm menos elos entre o agricultor e o consumidor. Outros exemplos de circuitos curtos são os serviços de entregas de cestas em casa e as CSA - Comunidade que Sustenta a Agricultura (veja a lista organizada pelo IDEC, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor: https://feirasorganicas.org.br/comidadeverdade).



Para que sua busca por alimentos sem veneno possa ser ainda mais abrangente, procure também por produtores agroecológicos. São agricultores que não têm certificação orgânica, mas que produzem comida sem veneno e com práticas que se encaixam nos ciclos naturais, por exemplo: solo coberto com matéria orgânica, como no chão de uma floresta; controle natural de insetos; adubação com compostagem, esterco, ou verde, com espécies que fixam nitrogênio no solo; sistemas de policultivo, ou seja, várias espécies plantadas juntas, ao contrário das tão conhecidas — e daninhas — monoculturas. A agroecologia é o resgate de técnicas de cultivo ancestrais, praticadas por povos originários de diversos continentes, que tinham na observação da natureza sua principal forma de aprendizagem. Mas a agroecologia é um conceito mais amplo do que apenas as técnicas de cultivo. Diz respeito também à valorização do conhecimento e trabalho das mulheres e homens do campo. Traz consigo a reflexão sobre a distribuição de terras e busca corrigir desvios históricos como a precarização de modos de vida resultante do êxodo rural. A agroecologia propõe comida de verdade, sem veneno, produzida por homens e mulheres (e não máquinas e patrões, como é a agricultura industrial, ou patronal), de acordo com princípios naturais e respeitando o equilíbrio dos ecossistemas. Comida ambientalmente sustentável e socialmente justa. O que nem sempre acontece num cultivo orgânico que não tem a agroecologia como base: a comida pode ser sem veneno mas as práticas agrícolas e sociais continuam sendo as mesmas da agricultura convencional. É o orgânico como “nicho de mercado”, aquele que é caro no supermercado.


Sempre que possível, busque seu alimento fora do supermercado. Comprar direto do produtor agroecológico fortalece os circuitos curtos e faz com que esses alimentos cheguem cada vez a um número maior de pessoas, a preços mais justos e acessíveis para todos, produtores e consumidores. Agroecologia garante emancipação, autonomia, segurança e soberania alimentar e nutricional para esta e as futuras gerações.





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