• Eric Kataoka

Taioba ou inhame?

A importância de identificá-los corretamente





Falar das plantas que consumimos nas refeições sempre me remete à vivência no sítio dos meus avós. Agricultores, eles produziam e comercializavam hortaliças nas feiras livres da cidade de Sorocaba (SP). Entre os produtos, havia muitas plantas que hoje conhecemos como PANC (Plantas Alimentícias Não Convencionais): caruru, mastruço, serralha, taioba, entre outras. Com isso, acabei aprendendo como identificar algumas delas e o sabor que elas tinham, afinal, também estavam presentes nas refeições preparadas pela obaatian (avó, em japonês).


Recordo bem quando conheci e provei a taioba pela primeira vez. Achei curioso que aquela “grande folha” fosse comestível, e lembro até que relutei experimentá-la, mas acabei gostando muito. Nesse mesmo dia, um aspecto muito importante ao qual minha avó chamou atenção foi em relação ao cuidado em identificar de qual planta as folhas seriam retiradas, pois elas são muito parecidas com as folhas de inhame e das variedades “bravas” da taioba, cujo consumo não é recomendado e pode até ser perigoso à saúde. Conheçamos um pouco mais sobre elas e as principais características para que possamos identificá-las corretamente.




Tanto a taioba (Xanthosoma sagittifolium) quanto o inhame* (Colocasia esculenta) são plantas da família botânica Araceae - a mesma dos antúrios, costela-de-adão, entre muitas outras. A taioba é nativa das Américas e todas as partes da planta podem ser consumidas: folha, pecíolo (talo) e o cormo. Já do inhame, nativo do sudeste asiático, apenas o cormo é adequado para o consumo, e é por isso que a identificação correta dessas plantas é tão importante, pois, por serem parentes próximas, são muito similares morfologicamente. Ambas têm folhas sagitadas (em forma de flecha) ou formato que lembra um coração “pontiagudo”, mas diferem no local de inserção do pecíolo. Na taioba, o pecíolo está exatamente onde os “lobos” da folha se encontram. Já no inhame, o pecíolo está inserido abaixo da região de encontro dos “lobos”. Essa característica pode variar ligeiramente em algumas plantas, e observar a coloração pode ajudar a sanar a dúvida. A taioba tem tom verde uniforme, tanto nas folhas quanto no pecíolo, e as nervuras das folhas são levemente amareladas; no inhame, o pecíolo é escuro, em tonalidades de roxo intenso, que pode também aparecer nas folhas.


A identificação incorreta pode gerar problemas, pois essas plantas têm células com ráfides (cristais) de oxalato de cálcio. São as ráfides e outros compostos da planta que “pinicam” a língua, a mucosa da boca e da garganta e até mesmo a pele da mão de algumas pessoas, ao manusear os cormos descascados. Esses compostos estão presentes em concentrações variáveis nas partes da planta, daí a importância da identificação correta para saber se é seguro consumir suas folhas, talos e/ou cormos. Se ingeridas partes inadequadas ou sem cozimento, a pessoa pode ter certo incômodo, pela sensação do “pinicar” na boca e na garganta que, em casos mais graves, pode demandar atendimento médico. Nesse sentido, pode ser altamente arriscado consumir, por exemplo, o leite de inhame cru, tido como “milagroso” ou com efeito de “aumentar a imunidade”, entre outros “benefícios” sem comprovação médica. O cozimento é essencial para a taioba e para o inhame, pois é esse o processo que os tornam seguros para o consumo.

Portanto, em caso de dúvida, sempre verifique a procedência das plantas que vai consumir ou, se for colher em algum local, cheque as características da planta. Se mesmo após o cozimento você sentir sensação forte de “picância” na boca, é um indicativo de que a planta não deve ser consumida. Assim, é sempre mais seguro adquirir mudas ou partes da planta diretamente dos produtores, pois eles, com conhecimento adquirido com a prática, saberão identificar corretamente as variedades adequadas para o consumo.


* Taro é o nome amplamente usado, internacionalmente, para se referir ao que chamei de inhame (Colocasia esculenta). O termo inhame também é empregado para se referir ao cará, tubérculo produzido por plantas trepadeiras do gênero Dioscorea, que pertencem à família botânica Dioscoreaceae, portanto, não relacionadas ao inhame ou à taioba.


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Foto: Camila Fontenele

Ilustração: Rita Taraborelli

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